Antônio Adônnis Sátiro de Souza[1]
[1] Mestre em Tecnologias
Emergentes em Educação, Must University, Flórida, EUA. Graduado em Ciências
Sociais pelo Centro Universitário ETEP/SP. Graduado em Filosofia e Pedagogia
pela Universidade Metropolitana de Santos/SP. Professor Universitário. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0200717083383781 -
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7147-8093.
E-mail: esp.satiro@gmail.com.
RESUMO
Este
ensaio objetiva fomentar o senso crítico político com base nos fatos desta
última semana, com base no fato que um tesoureiro do PT (Partido dos Trabalhadores), foi assassinado
por um cidadão que defende uma posição política contrária e faz questão de
declarar isso no momento que comete o delito. A ideia é que este texto, de
cunho informativo, e de proposituras faça com que o leitor pense no seu
posicionamento político e compreenda qual o real cenário que o Brasil se
encontra, além de fazer um contraponto a respeito do país que atualmente somos,
com o que fomos quando instaurou-se a Era Vargas que perdurou de 1930 a 1945,
época em que o então opositor ao candidato Júlio Prestes, Getúlio Vargas perdeu
as eleições diretas e mesmo assim, com o apoio das forças armadas instaurou o
golpe militar no país e não permitiu que Prestes fosse empossado. É um ensaio
que pretende levar o leitor a refletir os sinais políticos que ora vem
recebendo e auxiliá-lo a se posicionar no cenário político e atual que o país
emerge.
Palavras-chave:
Ameaça à democracia. Crime político. Golpe de Estado. Getúlio Vargas. Eleições.
1 Comentários acerca dos acontecimentos políticos recentes: normalidade ou atrocidade?
O presidente da República Jair Bolsonaro faz
afirmações que não são falácias quando diz que o está em jogo é o futuro do
Brasil. Porém ao comentar o assassinato
de um líder do Partido dos Trabalhadores (PT) em Foz do Iguaçu, no Paraná, por
um apoiador de sua campanha ele disse que "uma andorinha não faz verão,
mas o verão começa por uma andorinha". Agora direciono a cada um de vocês que leem isso:
Que recado um indivíduo que usa essa paráfrase quer dar a partir desta afirmação?
Isso aconteceu na quinta-feira dia 7/7/2022
em sua live semanal no Youtube,
o presidente disse que não quer um novo Capitólio no Brasil, se referindo à
invasão que houve nos EUA, quando os apoiadores do Trump, souberam da sua
derrota e em janeiro deste ano invadiram o Capitólio que corresponde ao
Congresso Brasileiro.
O Presidente falou com as seguintes
palavras: "não precisa aqui dizer o que estou pensando, o que você está
pensando, você sabe o que está em jogo, você sabe como você deve se preparar,
não para um ‘novo Capitólio’, ninguém quer... invadir nada, mas para... nós
sabemos o que temos que fazer antes das eleições".
Isso me soa como uma clara ameaça de golpe
de Estado! Se comparar esta afirmação com todas as demais que o presidente vem
falando com relação ao STF nos últimos anos, é algo que precisa ser analisado
com cautela.
Segundo o presidente, ainda na live de 7/7/2022, ele fará uma apresentação para
os chefes de embaixadas estrangeiras no Brasil sobre o tema, e apresentará num
Power Point "tudo o que aconteceu nas eleições de 2014 e 2018 documentado,
bem como essas participações dos três ministros do TSE que são do Supremo"
- que a meu ver serão informações soltas, acusações infundadas, conspiratórias
e mentirosas como é de seu feitio.
Quero refrescar a memória de quem ainda
não acompanhou a história desse país: Em 1929 finalizava o governo de
Washington Luís, e estava na disputa para novo pleito a partir de 1930, Getúlio
Vargas e Júlio Prestes. Este último foi eleito com a maioria dos votos válidos
(59,39%) mas não empossou. Este foi o primeiro e único político até então, eleito
presidente da República do Brasil pelo voto popular a ser impedido de tomar
posse. Os militares articulados por Getúlio Vargas, que ficou com os outros 40%
dos votos, tomaram o poder e uma junta provisória ficou governando por dez dias
até que Getúlio chegasse no Palácio do
Catete para assumir, e depois já sabemos o que aconteceu.
A história está caminhando para se repetir,
pois a cada pronunciamento aberto do atual presidente e a cada participação em
eventos públicos ele reforça essa ideia de poder, poder, poder, os discursos de
ódio contra o oponente, as vociferações às minorias não é segredo, pois estão
documentados na internet, muitos deles com vídeos. Um caso mais recente (julgado em de agressão a uma jornalista ocorrido
em fevereiro de 2020, lhe rendeu uma condenação histórica a um presidente, a pagar indenização por danos
morais em São Paulo, por entendimento de declaração misógina e machista contra
uma jornalista[1].
Pergunto, é normal um presidente no
exercício do seu cargo direcionar ofensa a um jornalista enquanto trabalha?
Do outro lado do país, ocorre o último
crime que considero político do Brasil recente, neste domingo dia 11/7/2022. Um homem armado, chamado Jorge José da Rocha
Guaranho, (armamento é uma espécie de carro-chefe defendido pelo presidente
desde a sua campanha política), - entrou em uma festa particular para matar!
Ele, o rapaz que já está preso, entrou no
salão gritando “aqui é Bolsonaro” em uma festa cuja temática era o atual
ex-presidente Lula, do PT. Guaranho entrou,
gritou e atirou para matar, em José Arruda, tesoureiro do Partido dos
Trabalhadores em Foz do Iguaçu. Foi um eleitor que agiu de forma política extremista,
mas o comportamento dele, não pode vir a ser o comportamento de muitos outros?
Ao que se vê, pelo que defende o líder,
não é bem o que ocorreu, ainda que no sentido figurado na campanha de 2018, o
presidente afirmou em um palanque: “Vamo
fuzilar a petralhada aqui do Acre!”. Existem vídeos comprovando isso na
internet, nesta data em específico fez sinal de arma com o tripé de uma câmera
ao invés da mão como faz sempre.
Aqui podemos compreender do ponto de vista
sociológico, o que é o Paradigma da Tolerância em Karl Popper. É o momento em
que definimos quando um grupo de pessoas, ou um partido se torna extremista ao
ponto de não ser mais tolerado em uma sociedade democrático.
Analisando Karl Popper (filósofo inglês
falecido em 1994), em sua obra “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos”, Popper
identifica e crítica de forma extenuante as os pensamentos filosóficos que
deram origem, na opinião dele, aos movimentos totalitários do século XX,
movimentos. Podemos listar alguns pontos que determinam se o comportamento de
um grupo é totalitarista ou não.
O primeiro deles é o "comportamento
irracional", em que não importa o que você diga, não será respondido,
só se ouve gritos, truculência e ameaça. Nada é discutido, ou levado em
consideração. O senso comum é a base de sua sustentação. Posso apontar o
anticientificismo do governo, a negação de dados oficiais do país, informados
por órgãos que construíram décadas de trabalho sério e de reputação ilibada, pautados
na ciência e na pesquisa. Cito a negligência com o Instituto Butantan, quando logo
no início da pandemia o presidente se recusou a negociar a produção das
vacinas, que ao contrário do que defendia, são eficazes contra a COVID-19, e os
números da pandemia refletem isso. Em julho de 2019, acusou o Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de mentir sobre dados de desmatamento e
de estar “agindo a serviço de uma ONG” de maneira leviana e sem provas.
A segunda característica apontada por
Popper é a “tendência do isolamento dos seguidores”, colocando-os em uma
bolha, impede que seus apoiadores ouçam os contra-argumentos dos opositores, além
da tentativa de trabalhar incansavelmente para que os contra-argumentos
apresentados sejam ignorados. Há ainda a prática de distorcer, mentir, deturpar
para evitar que o outro lado consiga dizer aquilo que de fato precisa. Nos dias
atuais a desinformação tem sido propagada por meio de edição de vídeos, fotos e
áudios.
A tentativa de banalizar, desqualificar os
fatos tem sido muito grande. Estes últimos pontos apontados por Popper, podem
ser características muito marcantes, no Brasil são vistas mensagens mentirosas
e infundadas em grupos e redes sociais; e por fim, a terceira característica
que é a “violência”.
Os grupos organizados estão prontos a partir
para a violência física e o assassínio, é vista a truculência e os palavrões,
de forma recorrente, o que nos faz entender que se isso continuar até as
eleições que se aproximam, a tendência é não aceitar o contraditório, não
permitir que haja oponência, e se, em grande escala, acontecer, - haja
extermínio de opositores, - e o resultado disso, é o fim da democracia, da
mesma forma que aconteceu em 1930 com o golpe de Getúlio Vargas. Um pouco mais
para frente houve outro golpe militar e o avanço para a tortura e para atos institucionais como AI-5 já defendidos,
por membro da família Bolsonaro, (inclusive o próprio presidente participou de
um evento em 20 de abril de 2020, cujos atos antidemocráticos geraram pauta de
investigação e inquéritos no STF)[2].
Por que eu estou assustado com isso tudo?
Porque a cúpula do governo tem recebido estes e outros acontecimentos de forma
assustadoramente normal. Observe o que o vice-presidente da República Hamilton
Mourão respondeu a respeito do episódio do assassinato em Foz do Iguaçu desta
semana. Ele diz que
“Não
é preocupante. Não queira fazer exploração política disso daí. Vou repetir o
que eu estou dizendo, e nós vamos fechar esse caixão. Para mim é um evento
desses lamentáveis que ocorrem todo final de semana nas nossas cidades, de
gente que briga e termina indo para o caminho de um matar o outro". (Hamilton
Mourão, publicado em ‘O Estado de Minas’, 11/7/2022 10:13)
Ainda na escalada do estarrecimento, o líder
do governo na câmara, o Deputado Federal Ricardo Barros, fez uma declaração um
tanto quanto simplista. Para ele,
“agressões podem ocorrer ‘eventualmente’
durante o período eleitoral, como ocorrem em estádios de futebol ou em brigas
de trânsito, mas não são um elemento ‘sistêmico do processo político brasileiro’
”. (BARROS, Ricardo, publicado em JP News, 11/7/2022).
Me pergunto onde se é normalizado,
encontrar alguém que adentra a uma festa particular, grita que é apoiador de um
candidato A, e atira em outro indivíduo, que apoia o candidato B, aos berros
como se fosse um mantra de que apoia A ou B. Estes episódios não se assemelham
nem de longe movimentos por democracia.
Feitas estas proposituras, diante das explanações
acima, finalizo meu relato perguntando: Consegui lhe fazer pensar? Consegue
imaginar como estão se formando grupos com características e comportamentos extremos
com atos antidemocráticos, anticristãos, fundados a partir de ideologias
contrárias àquilo que o bom senso e os ideias racionais, democráticos e
positivistas defendem desde o início da história da república deste país? Estes
comportamentos se assemelham aos grupos ideológicos extremistas da Europa e
Oriente Médio que tendem a crescer exponencialmente se não houver uma
conscientização dos ideólogos da paz e da democracia.
É apenas isso que eu queria que você se
respondesse, quando chegasse aqui, o resto é com você. Você vai ficar esperando
arrancarem as flores do seu jardim vagarosamente até que um dia lhe roubem a
sua casa, matem seu cachorro e lhe tirem a sua fala?
É isso.
Academia Brasileira de Ciências. Diretor do INPE nega acusações, reafirma dados sobre desmatamento e diz que não deixará cargo. Publicado em: 21 de julho de 2019. Disponível em: <https://www.abc.org.br/2019/07/21/diretor-do-inpe-nega-acusacoes-de-bolsonaro-reafirma-dados-sobre-desmatamento-e-diz-que-nao-deixara-cargo/>. Recuperado em: 12 jul. 2022.
CRUZ, Valdo. Negligência do governo Bolsonaro com
vacina do Butantan foi maior do que com a Pfizer. Publicado em: 27/05/2021
13h05. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2021/05/27/negligencia-do-governo-bolsonaro-com-vacina-do-butantan-foi-maior-do-que-com-a-pfizer-diz-calheiros.ghtml>.
Acesso em: 12 jul. 2022.
Estado de Minas. Seção: Política. Mourão diz que
assassinato de petista em Foz do Iguaçu 'não é preocupante'. Disponível em:
<https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2022/07/11/interna_politica,1379326/mourao-diz-que-assassinato-de-petista-em-foz-do-iguacu-nao-e-preocupante.shtml>
Recuperado em: 12 jul. 2022.
OLIVEIRA, Joana. EL PAÍS. Governo Bolsonaro
enfraquece o INPE e retira do órgão divulgação sobre dados de queimadas. Disponível
em:
<https://brasil.elpais.com/brasil/2021-07-13/governo-bolsonaro-enfraquece-o-inpe-e-retira-do-orgao-divulgacao-sobre-dados-de-queimadas.html#?prm=copy_link>.
Publicado em 11 de julho de 2021, 18:21, São Paulo. Acesso em: 12 jul. 2022.
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